A genialidade de Nasi, do Ira!, agora está em documentário: “Você Não Sabe Quem Eu Sou”  – Claudio Tognolli

Documentário “Você Não Sabe Quem Eu Sou” esmiúça
vida e controvérsias de Nasi, vocalista do Ira!
e
 grande ‘exu’ do rock brasileiro

Roqueiro. Maluco. Feiticeiro. Ídolo. Exu. Doce criatura. Herói comum. Todas essas definições cabem para responder a mesma pergunta. Quem é NasiQuando a produção do documentário “Você Não Sabe Quem Eu Sou” encontrou o cantor Lobão e o convidou para participar do filme, a mulher e empresária do roqueiro carioca perguntou: “mas o Nasi está em condições de falar?”.

Se essa é a imagem do vocalista do Ira! no próprio meio musical, qual será a ideia que fãs, amigos e parceiros musicais têm dele? “Você Não Sabe Quem Eu Sou”esmiúça passagens da vida de Nasi, um dos protagonistas da explosão do rock brasileiro nos anos 1980, e ouve os personagens de grandes controvérsias que cercam o vocalista: sua fama de encrenqueiro, a polêmica separação do Ira! e as brigas com amigos e familiares que acabaram na Justiça.

É possível um dos últimos ícones tupiniquins da tríade sexo, drogas e rock ‘n’ roll ter uma vida comum? “Levo uma vida prosaica”, garante Nasi, o cantor acostumado a quebrar copos no palco com as próprias mãos, ex-dependente de drogas que no começo dos anos 1990 tinha um “personal traficante”, o homem que diz ter mais de mil mulheres no currículo, entre elas celebridades como Marisa Monte e Marisa Orth, o dono da voz que emplacou vários sucessos e música em novela das oito, que no auge de sua fase mais conturbada foi alvo de um pedido de interdição judicial do irmão e do próprio pai. Com uma trajetória repleta de aventuras, esse homem pode levar uma vida simples?

 “Você Não Sabe Quem Eu Sou” mostra um recorte de seis anos na vida de Nasisua rotina dividida entre shows para diferentes públicos pelo Brasil, programas de TV, devoção religiosa e momentos de descanso ao lado das filhas na Praia do Espelho, em Trancoso, na Bahia

 O documentário passeia do roqueiro raivoso que atirava contra todos ao homem apaziguado, responsável por aparar as arestas e pavimentar o caminho para a volta do Ira!, banda que escreveu parte da história do rock brasileiro experimentou o auge do sucesso com canções como “Núcleo Base”, “Pobre Paulista”, “Envelheço na Cidade” e “Flores em Você” — que em 1987 chegou a ser tema de abertura da novela “O Outro”, da Rede Globo.

 No início dos anos 1990, o grupo sofreu com a decadência do rock nacional. Mantido aos trancos e barrancos, sobreviveu enquanto seus dois pilares investiamparalelamente em carreiras individuais. Edgard Scandurraem várias bandas, como sempre. Nasi se encontrou no blues. 

Mas o sucesso e o prestígio alcançados na década de 1980 não se repetiriam nos anos seguintes. E não só a banda entrou em crise. Nasi se afundou nas drogas. Em 1997, ajudado pelo irmão, foi internado numa clínica para recuperação de dependentes químicos. Desde que saí de lá nunca mais usei cocaínaafirma um sereno Nasi em sua casa de praia na Bahia

Nos anos 2000, o Ira! recuperou a forma e surfou em uma nova onda de prestígio com os álbuns “Isso é Amor”, “MTV ao Vivo” e “MTV Acústico”último grandesucesso comercial e de crítica da bandaE seu “canto de cisne” antes da separação em 2007. Em meio a muitos atritos, principalmente com seu próprio irmão eempresário do Ira! Airton Valadão Júnior, Nasi se encontro na religião iorubá. 

 Depois de muitas declarações polêmicas e trocas de ofensas, o roqueiro lançou uma biografia (“A Ira de Nasi”) e entendeu que, envelhecido na cidade, não precisava maisbrigar. Fez as pazes com o velho amigo Edgard Scandurracolocou o Ira! de volta na estrada. 

Há quem atribua o começo da era “paz e amor” de Nasi àreligião iorubá, força crescente na sua vida. Numa cerimônia do culto africano, o roqueiro que se gabava das conquistas amorosas em revistas masculinas se casou. Nasi não se tornou um convertido fiel e fanático, longe disso. Mas existe um contraste, que precisa ser mostrado, entre o rock star do passado e o cinquentão que encara a vida de um jeito mais maduro, sem perder a fama de durão. 

“Você Não Sabe Quem Eu Sou” é um mergulho nos bastidores de shows e da vida desse personagem indefinível até para os que o conheceram de perto. O filme mostra detalhes que levaram o Ira! se separar ruidosamente e como foi costurado o retorno da banda. Do processo de interdição judicial de Nasirevela o conteúdo inédito do laudo psiquiátrico do processo. 

“Você Não Sabe Quem Eu Sou” foi dirigido pelo jornalista e escritor Alexandre Petillo (coautor da biografia “A Ira de Nasi, com Mauro Beting) ao lado dos também jornalistas Rodrigo Grilo (autor do livro e documentário “Toque de Gênio”, que também dirigiu “Eu e o Tetra – Lembranças de 1994”) e Rogério Corrêa(apresentador e repórter da TV Vanguarda, afiliada Globo no Vale do Paraíba), com roteiro da publicitária e escritora Rita de Podestá do jornalista e  escritor Vitor Pamplona.

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Sinopse: Desde o início dos anos 1980, quando despontou como vocalista do Ira!, Nasi figura entre os músicos mais talentosos e também mais encrenqueiros do rock brasileiro. O documentário acompanha o artista durante seis anos e esmiúça eventos que marcaram sua carreira e abalaram sua vida pessoal, do fim do Ira! a conflitos familiares que foram parar na Justiça. Neste período, podemos ver a transição do roqueiro raivoso para sua era “paz e amor” e o duro processo que o levou a fazer as pazes com seu parceiro Edgard Scandurra.


“Você Não Sabe Quem Eu Sou”

Documentário | 102 minutos | 2018
Um filme de Alexandre Petillo, Rodrigo Grilo e Rogério Corrêa

Com Nasi, Edgard Scandurra, Selton Mello, Airton Valadão Jr., André Barcinski, Lobão, Johnny Boy, Vagner Garcia, Baba King, Mauro Beting, Ricardo Gaspa, entre outros

Roteiro: Rita de Podestá e Vitor Pamplona
Direção de fotografia: Roberto Kumamoto
Produção Executiva: Erick Miranda, Mirian Bolson e Silvia Venna
Direção de arte: Erick Miranda e Rafael Armbrust
Edição e finalização: Rafael Armbrust
Montagem: Alexandre Petillo e Rafael Armbrust
Imagens: Alexandre Petillo, Erick Miranda, Carlinhos Brazil, Eduardo Oikawa, Luciana Izuka, Márcio Fukushima, Rita de Podestá, Roberto Kumamoto, Rodrigo Vaz de Lima

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