Do Diário do Povo

Os conflitos comerciais não são novos na história econômica dos Estados Unidos, e eles passam constantemente pelo mesmo ciclo vicioso. Inicialmente, os EUA tentam limitar a competição e proteger sua economia, mas rapidamente acabam danificando a economia global.

A Grande Depressão dos anos 1930 é o exemplo perfeito. Sob pressão econômica, o então presidente Herbert Hoover assinou a Lei Hawley-Smoot, aumentando as tarifas sobre mais de 20 mil bens importados, o que causou taxas recíprocas de vários parceiros comerciais dos EUA. Consequentemente, as importações e exportações dos EUA caíram agudamente em mais de 60%, exacerbando a depressão e prejudicando a economia global.

Nas últimas três décadas, os conflitos comerciais dos EUA concentraram-se em várias áreas, incluindo bananas, madeira, aço e pneus. Mas os impostos mais altos sobre esses produtos nunca melhoraram a economia norte-americana, pelo contrário, deixaram todas as partes em uma situação pior.

Como disse Shakespeare em A Tempestade: “O passado é um prólogo”.

Os EUA lançaram a maior guerra comercial da história econômica. Para “tornar a América grande novamente”, o país quer eliminar o déficit comercial com a China, que considera prejudicial à sua economia.

Porém, a China e os EUA apresentam números muito diferentes do que o déficit comercial realmente é. Segundo dados do Departamento de Censos dos EUA, o déficit comercial com a China atingiu o recorde de US$ 375 bilhões em 2017, enquanto as alfândegas da China calculam o superávit do país com os EUA em US$ 275 bilhões.

“Discrepâncias estatísticas aumentam o cálculo do déficit comercial dos EUA com a China em cerca de 20% por ano”, segundo Zhong Shan, ministro do Comércio da China.

Um iPhone, por exemplo, tem um papel significativo de discrepância no déficit comercial dos EUA com a China. Superficialmente, o déficit parece ser de US$ 375 bilhões, com o iPhone sozinho respondendo por aproximadamente 4,4% do valor. Entretanto, o valor real é bem mais baixo.

Como os iPhones são montados na China, os números mostram quase o custo completo para se produzir um iPhone, enquanto, na realidade, muito pouco desse dinheiro é gasto na China.

Segundo o IHS Markit, os componentes de um iPhone custam um total de US$ 370,25. Entre eles, US$ 110 vão à Samsung Electronics na Coreia do Sul, que fornece as telas. Outros US$ 44,45 pertencem às Toshiba Corp do Japão e a SK Hynix, da Coreia do Sul, por chips de memória.

Outros fornecedores dos EUA e Europa também pegam suas fatias, enquanto a montagem, pelas empresas na China como Foxconn, representa somente entre 3% e 6% do custo de produção do celular.

Neste caso típico, será que é justo declarar que a China pega todo o superávit comercial nas suas exportações de iPhone aos EUA?

Os EUA têm um problema, mas esse problema não tem nada a ver com a China, ele é interno, disse Joseph Stiglitz, economista americano vencedor do Nobel. “Os EUA têm poupado muito pouco”, escreveu ele em um artigo recente, indicando que as autoridades dos EUA devem fazer o que puderem para aumentar a poupança nacional e reduzir o déficit comercial multilateral, se eles tiverem uma compreensão básica da economia e uma visão de longo prazo.

Ele disse que reduzir significativamente o déficit comercial bilateral é difícil, e que o equilíbrio comercial geral da China, como o dos EUA, é determinado pela macroeconomia.

A imposição de tarifas dos EUA sobre US$ 50 bilhões de importações da China já gerou efeitos contrários.

O déficit comercial geral dos EUA aumentou 7,3% em junho, segundo o Departamento do Comércio dos EUA. Ele está a caminho de bater o recorde em uma década.

Conflitos comerciais não são raros entre a China e os EUA ao longo dos quase 40 anos de relações diplomáticas. A história tem mostrado que os dois países nunca ficaram sem meios para navegar em águas turbulentas.

Nos anos 1980 houve uma disputa comercial envolvendo tecidos, mas os dois lados chegaram a um acordo através de negociações, com empresários chineses chegando até a abrir fábricas têxteis nos EUA. A indústria têxtil tornou-se, naquela época, a área que criava mais empregos na manufatura dos EUA, gerando assim mais cooperação do que confronto.

A história e as estatísticas têm mostrado que travar uma guerra comercial é inútil. O que os EUA precisam é apenas tomar a atitude correta.

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