11 de Setembro: a “Guerra ao Terror” e as consequências para o mundo | Claudio Tognolli

Deutsche Welle

 

Estátua de Saddam sendo derrubada. Estátua de Saddam Hussein é derrubada em Bagdá. Ditador não estava envolvido no 11 de Setembro, mas foi escolhido como alvo da “guerra ao terror”

Vinte anos se passaram desde os ataques de 11 de Setembro. A grande torre de um novo World Trade Center foi erguida no Marco Zero, onde ficavam as Torres Gêmeas, com um memorial às quase 3.000 vítimas dos ataques que atingiram os Estados Unidos e o mundo.

Nova York se recuperou do choque dos atentados. Hoje ela tem mais habitantes do que em 2001 e, até a pandemia de covid-19, a economia estava crescendo.

Mas nada é como antes, como poderia ser? Não só nos EUA, onde eventos e homenagens marcam esse dia que nunca será esquecido. Mas também em grande parte do Oriente Médio e no Afeganistão. A bandeira do Talibã está hasteada novamente, exatamente como há 20 anos.

Mas, quando um ataque terrorista matou recentemente cerca de 170 afegãos e mais de uma dúzia de soldados americanos durante a operação de evacuação no aeroporto de Cabul, o braço local do “Estado Islâmico” (EI) assumiu a autoria do crime.

Essa organização nem existia há 20 anos, quando começou a “guerra ao terror”. No entanto, suas origens estão intimamente relacionadas a esta guerra – e a como ela foi travada.

“Sabemos muito bem que a ascensão do EI foi resultado direto da queda de Saddam Hussein em 2003”, afirma Bernd Greiner.

Em entrevista à DW, o historiador de Hamburgo explica que grande parte da primeira geração de combatentes do EI veio do antigo exército de Saddam Hussein.

Bush fala em um púlpito, a bordo do porta-aviões. Ele usa terno escuro. Várias pessoas assistem. George W. Bush declarou o fim da guerra do Iraque, em maio de 2003

“O exército foi dissolvido pelos Estados Unidos. Centenas de milhares de jovens estavam nas ruas, sem nenhuma perspectiva de emprego. Isso é um terreno fértil para a radicalização”, afirma.

Estiletes que começaram uma guerra

Em 2001, terroristas da Al-Qaeda derrubaram o World Trade Center, um símbolo de poder econômico, e atacaram o Pentágono, o centro do poder militar. Com o assassinato em massa, eles desencadearam um trauma nacional. E tudo usando apenas estiletes, com os quais transformaram aviões de passageiros em armas, guiados por um árabe saudita chamado Osama bin Ladende uma caverna no Afeganistão.

Uma humilhação sem precedentes para um país que, na época, talvez estivesse no auge de seu poder, que se sentia quase invulnerável, doze anos após sua vitória na “Guerra Fria” e o colapso da União Soviética.

Os EUA reagiram com perplexidade e luto – e tiveram a solidariedade de todo o mundo. Os americanos reagiram com raiva e buscaram vingança – e receberam apoio.

Uma ação policial ou uma operação com forças especiais, como ocorreria dez anos depois na eliminação do líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, no Paquistão, estava fora de questão para o governo dos Estados Unidos.

Pela primeira vez na história da OTAN, foi declarado Casus foederis. Em uma ação militar legitimada pelo Conselho de Segurança da ONU como um ato de autodefesa, o Talibã no Afeganistão foi derrubado em poucos meses.

Quando George W. Bush atacou o Iraque em 2003, já não havia mais tal legitimidade. Houve apenas falsas alegações sobre as ligações de Saddam Hussein com os terroristas de 11 de setembro, bem como mentiras sobre o o ditador iraquiano estar produzindo armas de destruição em massa.

A “Nação Indispensável” demonstra seu poder

Muitos políticos americanos viram a oportunidade, após o 11 de Setembro, de demonstrar ao mundo que os Estados Unidos eram a “nação indispensável”, afirma o historiador americano Stephen Wertheim em entrevista à DW.

“E eles demonstraram essa ‘indispensabilidade’ tentando redesenhar um país e uma região.

Bernd Greiner vê outro motivo. “Em sua impotência e incapacidade diante desse tipo de ataque assimétrico, os EUA queriam demonstrar ao mundo, e especialmente ao mundo árabe: qualquer um que mexer conosco no futuro, perderá seu direito de existir”.

Para o historiador, esse foi “basicamente um ato simbólico, tanto no Afeganistão quanto no Iraque”.

Foto do rosto de Donald Rumsfeld. Ele usa óculos. Ex-secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ficou apreensivo com operação no Afeganistão.

Corroborando a hipótese de Greiner, apenas algumas semanas após o 11 de Setembro, a Casa Branca encarregou o Pentágono de desenvolver cenários para uma guerra contra o Iraque. E em seu livro, Bush at War, Bob Woodward relatou que o então secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, estava preocupado por não ter alvos suficientes para armas de alta tecnologia dos EUA no Afeganistão.

“Não queremos parecer que estamos martelando na areia”, disse Rumsfeld. “Precisamos de algo para atacar. Mas não há tanta Al Qaeda para atacar”.

Essa atitude era generalizada em outras partes do establishment político. Quando, por exemplo, o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger foi questionado por Michael Gerson, redator de discursos de George W. Bush, por que apoiava a guerra do Iraque, a resposta recebida foi: “Porque o Afeganistão não foi o suficiente”.

Os opositores radicais dos EUA no mundo muçulmano queriam humilhar os Estados Unidos, “portanto, devemos humilhá-los”.

Para o historiador Stephen Wertheim, o Iraque representou mais um palco para demonstrar força do que uma reação a uma ameaça.

Quase 1 milhão de vítimas da guerra

A “guerra ao terror” proclamada pelo presidente George W. Bush tornou-se uma guerra sem fronteiras. Uma guerra “que não é definida com precisão, nem temporal nem geograficamente. É travada globalmente”, como explica Johannes Thimm, da Fundação de Ciência e Política de Berlim (SWP, na sigla em alemão).

O projeto Cost of War, da Brown University, apontou recentemente que os Estados Unidos aplicam iniciativas antiterrorismo em 85 países.

A equipe, que consiste em mais de 50 pesquisadores, juristas e ativistas de direitos humanos, levantou vários números assustadores. Na “guerra ao terror”, quase 930.000 pessoas foram mortas diretamente em combate – quase 400.000 delas eram civis.

Foto mostra escombros de um veículo. Ao fundo, escombros de casas. A cidade síria de Mossul em junho de 2018, um ano após ser libertada das mãoes do EI

Os números lançam uma luz diferente sobre as palavras do general americano Stanley A. McCrystal em seu discurso de posse como comandante da Força Internacional de Apoio à Segurança (ISAF, na sigla em inglês) no Afeganistão, em 2009.

“Eu acredito que a percepção pública de civis mortos é um dos inimigos mais perigosos que enfrentamos”, disse na época.

Como consequência disso, a face mais sinistra da guerra foi amplamente escondida.

O público mundial reagiu com choque quando a plataforma Wikileaks revelou, em 2010, a verdadeira face das guerras no Iraque e no Afeganistão, com a divulgação do vídeo “Assassinato Colateral”, evidências muito drásticas do assassinato de civis em Bagdá.

Perda de reputação

A reputação dos EUA já estava abalada. Não era a primeira vez que os líderes do país rasgavam a lei em sua guerra. Em uma entrevista à DW, o especialista do SWP Johannes Thimm lembra da reintrodução oficial da tortura.

“Porque a tortura era, na verdade, uma violação completa da lei. Há também uma razão pela qual não é chamada de tortura, mas sim de ‘técnicas aprimoradas de interrogatório’. Porque a tortura é simplesmente inequivocamente proibida pelo direito internacional”.

Houve, ainda, a detenção de suspeitos por décadas em áreas completamente à margem da lei, como a base naval dos EUA em Guantánamo. E, acima de tudo, a morte de suspeitos de terrorismo em ataques de drones: o Bureau Of Investigative Journalism contabilizou pelo menos 14.000 ataques com drones. Estima-se que entre 9.000 e 17.000 pessoas morreram, incluindo 2.000 civis e centenas de crianças.

“Mesmo que isso não possa ser provado empiricamente, minha impressão é que os assassinatos dirigidos por drones provavelmente produziram mais jihadistas no Afeganistão do que mataram”, avalia Johannes Thimm.

Foto mostra um drone voando. Ataques com drones americanos já mataram vários civis

Não apenas no Afeganistão. O cientista político Julian Junk, da Fundação Hessian para Pesquisa em Paz e Conflitos (HSFK, na sigla em alemão), afirmou à DW que “podemos afirmar que os métodos extrajudiciais da ‘guerra ao terror’ tiveram um efeito mobilizador sobre os grupos salafistas e jihadistas”.

Um erro de oito trilhões de dólares?

De acordo com o Cost of War, os 20 anos da “guerra ao terror” custaram apenas aos Estados Unidos a soma inimaginável de oito trilhões de dólares. Com esse valor, é possível facilmente pagar pelo programa de infraestrutura de Joe Biden várias vezes.

É por isso que o especialista norte-americano Bernd Greiner chega à conclusão de que, mesmo desconsiderando as consequências para o resto do mundo: “Os EUA causaram imensos danos para si com essas despesas insanas nas guerras no Iraque e no Afeganistão”.

“Portanto, há tantos outros esforços dignos para os quais os Estados Unidos poderiam ter direcionado seus vastos recursos”, lamenta o historiador americano Stephen Wertheim, “em vez de reagir destrutivamente aos ataques de 11 de Setembro”.

error: